O SEXISMO EM HOLLYWOOD

By Novembro 13, 2017#NaoMeAbsorva
O SEXISMO EM HOLLYWOOD

O SEXISMO EM HOLLYWOOD

“Para toda mulher que já deu à luz, para cada contribuinte e cidadã desta nação. Nós temos lutado pelos direitos iguais de todas as outras pessoas e é a nossa hora de ter igualdade salarial de uma vez por todas, direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos”. A declaração acima foi dada pela atriz Patrícia Arquette ao receber o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme Boyhood, em 2015, e elevou a discussão sobre a disparidade salarial e de oportunidades entre homens e mulheres em Hollywood.

O debate foi iniciado no fim de 2014, quando documentos vazados do estúdio Sony Pictures revelaram a discrepância salarial entre atores e atrizes. A partir disso, atrizes, produtoras, diretoras e roteiristas, a exemplo de Patrícia, passaram a se manifestar publicamente sobre o assunto. No início deste ano, por exemplo, Natalie Portman declarou em entrevista que ganhou três vezes menos que o colega de elenco Ashton Kutcher para protagonizar o filme Sexo sem Compromisso, em 2011.

O sexismo em Hollywood é algo que se manifesta nos mais diferentes níveis e de maneira nada velada. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, entidade responsável pela entrega do Oscar, por exemplo, é composta majoritariamente por homens, 77% para ser mais precisa, e, em 86 anos de história, premiou apenas UMA mulher como Melhor Diretora #naomeabsorvafabiano

Quer mais dados? Levantamento recente feito pela Escola Viterbi de Engenharia, da Universidade do Sul da Califórnia (USC), analisou cerca de mil roteiros de filmes populares produzidos nas últimas décadas, utilizando inteligência artificial e aprendizado por máquina. O resultado: dos 7.000 personagens analisados, quase 4,9 mil eram homens e apenas pouco mais de 2,1 mil eram mulheres. Além disso, os personagens masculinos falavam muito mais que os femininos – 37 mil diálogos envolviam homens e apenas 15 mil mulheres.

Outro estudo, realizado pela Escola Annemberg de Comunicação e Jornalismo, comprovou que, em 900 filmes lançados no período de quase dez anos (entre 2007 e 2016), a porcentagem de personagens femininas com falas nunca superou 32,8%. O site Polygraph.com fez algo similar e analisou, em 2016, mais de dois mil roteiros para identificar a quantidade de diálogos atribuídos a atores e atrizes nas produções. O resultado é chocante: 1195 filmes têm entre 60% e 90% dos diálogos pronunciados por homens – por mulheres, apenas 166.

Segundo relatório realizado pelo Center for the Study of Women in Television and Film, da Universidade Estadual de San Diego (EUA), em 2016, 34% dos 250 longas-metragens de maior bilheteria não contrataram produtoras; 58% não contavam com produtoras executivas; 77% não tinham roteiristas mulheres; 79% não tinham mulheres na equipe de montagem; 96% não deram espaço para nenhuma diretora de fotografia; e 92% dos filmes não tinham nenhuma diretora do sexo feminino #assustador

Em frente às câmeras, o cenário também é pouco animador: estudo feito pelo Centro de Estudo Sobre Mulheres na Televisão e no Cinema, da San Diego State University, revelou que o percentual de protagonistas mulheres nos filmes de maior bilheteria de 2014 foi de 12%. Mais: 58% das mulheres só são escaladas para interpretar papéis sociais, como mães, esposas, amantes e não profissionais, ao passo que 61% dos homens são identificados por suas profissões.

A idade também é um fator que impacta negativamente as mulheres no cinema. Um estudo realizado em 2014 concluiu que os salários das mulheres em Hollywood crescem apenas até os 34 anos e, a partir daí, começam a cair. No caso dos homens, o salário cresce até os 51 anos e mantém certa estabilidade até alguns anos depois.

Mas as coisas, felizmente, estão começando a mudar, ao menos na TV norte-americana, considerada por muitos críticos como o grande celeiro criativo dos EUA na atualidade. Neste mês, por exemplo, o canal FX reuniu produtoras e diretoras de séries de grande sucesso, como American Horror Story, Scandal e The Americans, para discutir o assunto.

No evento, realizado na Television Critics Association (TCA), as profissionais destacaram a importância da criação de cotas de gênero para aumentar a participação das mulheres nas produções. “As cotas são necessárias para que as mulheres possam obter um primeiro emprego como produtoras e também para mudar as mentalidades”, afirmou Meera Menon, que já dirigiu episódios de Snowfall e Blood Drive. “Não somos iniciantes. Apenas precisamos que nos deem uma oportunidade. Ryan Murphy me confiou um episódio de American Horror Story e mudou a minha vida”, disse a diretora Rachel Goldberg.

Ano passado, o mesmo canal FX criou a Half Initiative, iniciativa que teve o intuito de aumentar a participação de mulheres ou representantes de minorias nas produções da emissora. O projeto tem sido um sucesso e ampliou de 12% para 51% o número de mulheres diretoras no canal.

Outro espaço interessante que tem buscado ampliar a representação das mulheres na mídia é o Geena Davis Institute on Gender in Media, da premiada atriz Geena Davis. Recentemente, eu comecei a fazer um curso maravilhoso, promovido pelo instituto, sobre representação de gênero e raça no entretenimento brasileiro. Enquanto mulher e dramaturga, busco constantemente nos meus trabalhos autorais aumentar a participação de mulheres, dentro e fora de cena, porque sei a importância da representatividade. Como diz a própria Geena Davis, “if she can see, she can be it”, ou “se ela pode ver, ela pode ser”.

E quando falamos em representatividade na indústria do entretenimento dos EUA, é impossível não mencionar Shonda Rhymes, a roteirista e produtora norte-americana, recém-contratada pela Netflix. Mulher e negra (população com baixíssima representatividade no cinema e na TV), ela é criadora de algumas das séries de maior sucesso da TV nos EUA, duas delas, Scandal e How to Get Away With Murder, com protagonistas negras. Uma profissional que, como bem disse Viola Davis (uma de suas protagonistas e primeira atriz negra premiada com o Emmy de Melhor Atriz em série dramática), redefiniu o que é ser mulher e negra na televisão dos EUA e, por consequência, do mundo.

A disparidade de gênero ainda é uma realidade, não apenas em Hollywood, mas no mundo. Porém, quanto mais falarmos sobre a questão e, principalmente, quanto mais apoiarmos mulheres que, como Shonda e Deena Davis, fazem a diferença, mais próximos transformaremos ‘a Man’s World’, ou ‘o mundo dos homens’, em um mundo igualitário, sem distinção de gênero, bom pra todo mundo.

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