TÔNIA, A DEUSA DOS OLHOS AZUIS

By March 7, 2018#CasaDeAraruama
tonia, a deusa dos olhos azuis

TÔNIA, A DEUSA DOS OLHOS AZUIS

Quando penso em Tônia Carrero, me lembro automaticamente da sua beleza impactante. Uma mulher lindíssima dona de um par de olhos azuis deslumbrantes cujo brilho tirava do prumo figuras do naipe de Carlos Drummond de Andrade, Di Cavalcanti, Rubem Braga e Vinicius de Moraes. “Como os homens se diminuem diante da beleza de uma mulher”, dizia, sempre bem humorada. Seu rosto era tão marcante e único que chegou a estampar a moeda de dez cruzeiros na década de 1950 (ela representava a figura da República).

Nascida em 1922, no Rio de Janeiro, viveu até a adolescência na Tijuca, mas aos 17 anos mudou-se para a Vieira Solto – tenho pra mim que ela foi uma das primeiras lendárias garotas de Ipanema. Iniciou sua carreira artística no cinema na década de 1940 e foi protagonista do filme Tico Tico no Fubá, considerado uma das melhores obras da Vera Cruz. Brilhou também na TV, dando vida a personagens inesquecíveis como a Cristina de Pigmalião 70 (1970), a Stella de Água Viva (1980) e a Rebeca de Sassaricando (1986).

Mas o teatro era de fato a sua grande paixão. No palco, ela teve a oportunidade de mostrar toda a sua versatilidade e nos presenteou com interpretações emblemáticas em espetáculos como Navalha na Carne, de Plínio Marcos; Casa de Bonecas, de Ibsen; Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams; Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee, e A Visita da Velha Senhora, de Friedrich Dürrenmatt.

Visionária, fundou ao lado do segundo marido, o diretor italiano Adolfo Celi, e do amigo Paulo Autran, a Companhia Tônia-Celi-Autran, que contribuiu bastante para o desenvolvimento do teatro brasileiro nas décadas de 1950 e 1960. Extremamente politizada, foi uma das participantes da Passeata dos 100 mil, que protestou contra a censura à Cultura imposta pela Ditadura Militar, em 1968 – ela aparece na linha de frente na icônica foto da manifestação, ao lado de nomes como Silvia Becker, Odete Lara e Eva Vilma.

Ao longo de 70 anos de carreira, contabilizou 54 peças, 19 filmes e 15 novelas, provou que beleza e talento podem sim andar juntos e em perfeita harmonia e com a sua personalidade e determinação abriu caminho para as atrizes da minha geração e das gerações posteriores. No início de março, Tônia, aos 95 anos, decidiu nos deixar. Como bem disse a colega Renata Sorrah, “o matriarcado do teatro brasileiro perdeu um de seus maiores nomes”. Tônia, você saiu de cena, mas seu inestimável legado será eterno!

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