UM BRASIL QUE NÃO SE VÊ NAS TELAS

By March 7, 2018#NaoMeAbsorva
UM BRASIL QUE NÃO SE VÊ NAS TELAS

UM BRASIL QUE NÃO SE VÊ NAS TELAS

O Brasil é um país miscigenado (formado por negros – 50,7% da população –, brancos e indígenas) e com mais mulheres do que homens – 51%, para ser mais exata. Mas não é este o cenário que vemos nas telas do cinema nacional. Segundo recente pesquisa da Agência Nacional de Cinema (Ancine), dos 97 filmes lançados em 2016, 40,6% tinham mulheres no elenco e apenas 13,4% deles contavam com a presença de atores negros – em 42% das produções analisadas não havia a presença de nenhum ator ou atriz negro. “Me surpreendeu o fato de o elenco principal ter tão pouca representação negra. Isso significa que a população brasileira não está se enxergando no audiovisual”, disse Luana Rufino, superintendente de Análise de Mercado da Ancine e coordenadora da pesquisa, em entrevista ao jornal El País.

O levantamento também revelou outros dados preocupantes: dos 142 longas-metragens lançados em 2016, 75,4% foram dirigidos por homens brancos – nenhum foi dirigido ou teve como roteirista uma mulher negra. Apenas 19,7% (ou 28 filmes) foram dirigidos por mulheres – todas brancas – e somente oito produções, ou 5,6%, tiveram um negro, pardo ou outra raça como roteirista. Nós mulheres só estamos mais presentes que os homens na área de produção executiva – no total, 39,7% dos filmes foram produzidos por mulheres e duas produções tiveram entre suas produtoras-executivas alguma mulher negra em parceria com uma mulher branca (a pesquisa não contemplou a presença de profissionais transgênero). Outro ponto importante e bastante sintomático apresentado pela pesquisa: 80% dos filmes analisados são do sudeste do país.

Para mudar este cenário, o Ministério da Cultura (MinC) lançou neste ano o programa #AudiovisualGeraFuturo, que conta com 11 editais com vagas reservadas para projetos audiovisuais (curtas, longas e animação) de mulheres (cisgênero e transgênero), negros e indígenas. A iniciativa visa aumentar a participação desses grupos no mercado, especialmente em direção e roteiro, e abrir espaço para que outras narrativas sejam contadas através das telas no nosso cinema.

Eu tive a honra de apresentar o evento de anúncio dessa política afirmativa e pude falar em nome das mulheres que agora terão mais oportunidades de tornarem reais seus projetos audiovisuais. As inscrições vão até o mês de abril. O MinC também lançou um edital de apoio à realização de festivais, mostras, premiações, eventos de mercado e ações de promoção e difusão da produção audiovisual brasileira.

A iniciativa tem como diferencial a distribuição regional de recursos, de maneira a estimular o apoio a eventos realizados fora do eixo Rio/São Paulo: no mínimo 30% dos recursos deverão ser destinados a projetos de empresas sediadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e pelo menos 20% a projetos da região Sul e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. As inscrições estão abertas e vão até setembro de 2019. O Brasil é diverso e essa diversidade precisa ser representada no nosso cinema. Representatividade importa e tem o poder de mudar a realidade de um país. Viva a pluralidade de narrativas!

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