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REDES DA MARÉ: DIREITOS NA FAVELA

REDES DA MARÉ: DIREITOS NA FAVELA

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REDES DA MARÉ: DIREITOS NA FAVELA

Falei na coluna #DonaDeSi, que escrevo semanalmente na revista Marie Claire, sobre a minha experiência no Women of the World Fetival 2018, um dos maiores eventos feministas do mundo, realizado em Londres. E da minha felicidade em representar o Brasil junto com iniciativas sociais incríveis como o Redes da Maré, sediado na Zona Norte do Rio de Janeiro.

O complexo da Maré ganhou as capas de jornais ultimamente por conta do brutal assassinato de Marielle Franco, no dia 14 de março. A vereadora do PSol era “cria da favela da Maré” – como ela mesma se apresentava em seu site oficial – e a sua trajetória como acadêmica foi um ponto fora da curva na comunidade, onde apenas 0,05% das pessoas tem mestrado.

Em 2016, foi eleita no Rio de Janeiro – a quinta vereadora mais votada – com uma campanha focada no lema “Eu sou porque nós somos”, na qual se referia as mulheres, negras moradoras de favelas, como ela.

Marielle era um nome importante na garantia de direitos da população mais pobre do Rio de Janeiro. Em pouco menos de 13 meses de mandato, apresentou 13 projetos – um deles em que propunha atendimento humanizado nos casos de aborto legal. Dias depois de denunciar os maus tratos da PM com moradores do subúrbio de Acari, foi brutalmente assassinada a tiros enquanto saia de um evento. Até hoje não houve nenhuma notícia do poder público sobre os mandantes do crime.

Militantes não deixam de levantar bandeiras que o crime contra a vereadora faz parte de um genocídio do povo preto e pobre pelas mãos do descaso do Estado. Lésbica e militante, Marielle morreu defendendo a causa dos seus e levando melhorias para os moradores da região, dominada pela violência policial.

Muito da história de vereadora tem a ver com a Redes da Maré. Ela foi aluna, professora e chegou a ser coordenadora do curso pré-vestibular comunitário que deu origem à instituição. A Redes da Maré trabalha através dos eixos de Arte e Cultura, Desenvolvimento Territorial, Direito à Segurança Pública e acesso à Justiça, Educação, Identidades/Memória e Comunicação.

Ao todo, 1.200 pessoas por ano são beneficiadas diretamente pelos projetos. De forma articulada, as ações buscam diariamente a ampliação de oportunidades para os moradores, que ao viverem numa favela sofrem historicamente diferentes formas de violações de direitos fundamentais.

O objetivo do eixo Direito à Segurança Pública e acesso à Justiça, por exemplo, é proteger a população da violência cotidiana no enfrentamento entre polícia e grupos civis armados que comercializam drogas ilícitas. Enquanto, outros eixos como Educação, Arte e Cultura visam contribuir para a formação cultural e profissional dos moradores da região. A instituição não governamental é dirigida por pessoas que têm origem na própria comunidade.

A Maré abriga cerca de 140 mil pessoas, distribuídas em 16 comunidades, numa área de pouco mais de 4 km². É o complexo mais populoso do Rio de Janeiro. Todo esse perímetro é atingido pelas ações da Redes. São ações como essa que podem transformar a sociedade. Já no caso da Marielle nós seguimos pedindo justiça! #MariellePresente #HojeeSempreMarielle

Foto: Douglas Lopes

UM BRASIL QUE NÃO SE VÊ NAS TELAS

UM BRASIL QUE NÃO SE VÊ NAS TELAS

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UM BRASIL QUE NÃO SE VÊ NAS TELAS

O Brasil é um país miscigenado (formado por negros – 50,7% da população –, brancos e indígenas) e com mais mulheres do que homens – 51%, para ser mais exata. Mas não é este o cenário que vemos nas telas do cinema nacional. Segundo recente pesquisa da Agência Nacional de Cinema (Ancine), dos 97 filmes lançados em 2016, 40,6% tinham mulheres no elenco e apenas 13,4% deles contavam com a presença de atores negros – em 42% das produções analisadas não havia a presença de nenhum ator ou atriz negro. “Me surpreendeu o fato de o elenco principal ter tão pouca representação negra. Isso significa que a população brasileira não está se enxergando no audiovisual”, disse Luana Rufino, superintendente de Análise de Mercado da Ancine e coordenadora da pesquisa, em entrevista ao jornal El País.

O levantamento também revelou outros dados preocupantes: dos 142 longas-metragens lançados em 2016, 75,4% foram dirigidos por homens brancos – nenhum foi dirigido ou teve como roteirista uma mulher negra. Apenas 19,7% (ou 28 filmes) foram dirigidos por mulheres – todas brancas – e somente oito produções, ou 5,6%, tiveram um negro, pardo ou outra raça como roteirista. Nós mulheres só estamos mais presentes que os homens na área de produção executiva – no total, 39,7% dos filmes foram produzidos por mulheres e duas produções tiveram entre suas produtoras-executivas alguma mulher negra em parceria com uma mulher branca (a pesquisa não contemplou a presença de profissionais transgênero). Outro ponto importante e bastante sintomático apresentado pela pesquisa: 80% dos filmes analisados são do sudeste do país.

Para mudar este cenário, o Ministério da Cultura (MinC) lançou neste ano o programa #AudiovisualGeraFuturo, que conta com 11 editais com vagas reservadas para projetos audiovisuais (curtas, longas e animação) de mulheres (cisgênero e transgênero), negros e indígenas. A iniciativa visa aumentar a participação desses grupos no mercado, especialmente em direção e roteiro, e abrir espaço para que outras narrativas sejam contadas através das telas no nosso cinema.

Eu tive a honra de apresentar o evento de anúncio dessa política afirmativa e pude falar em nome das mulheres que agora terão mais oportunidades de tornarem reais seus projetos audiovisuais. As inscrições vão até o mês de abril. O MinC também lançou um edital de apoio à realização de festivais, mostras, premiações, eventos de mercado e ações de promoção e difusão da produção audiovisual brasileira.

A iniciativa tem como diferencial a distribuição regional de recursos, de maneira a estimular o apoio a eventos realizados fora do eixo Rio/São Paulo: no mínimo 30% dos recursos deverão ser destinados a projetos de empresas sediadas nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e pelo menos 20% a projetos da região Sul e dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. As inscrições estão abertas e vão até setembro de 2019. O Brasil é diverso e essa diversidade precisa ser representada no nosso cinema. Representatividade importa e tem o poder de mudar a realidade de um país. Viva a pluralidade de narrativas!

O MELHOR PAÍS DO MUNDO PARA SER MULHER 

O MELHOR PAÍS DO MUNDO PARA SER MULHER 

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O MELHOR PAÍS DO MUNDO PARA SER MULHER 

Um dos temas que eu mais abordo aqui no journal e na minha coluna #DonaDeSi, no site da Marie Claire, é a importância de batalharmos juntos por uma sociedade mais igualitária. A desigualdade de gênero é um mal que assola o mundo inteiro. O mais recente relatório Global Gender Gap, publicado anualmente pelo Fórum Econômico Mundial desde 2006, estima que será preciso UM SÉCULO para reduzir a diferença de gênero no mundo se continuarmos no ritmo em que nos encontramos.

Levando em conta as desigualdades no local de trabalho, a estimativa da instituição é de que só teremos igualdade daqui a 217 ANOS! O ranking analisa a evolução da igualdade em 144 países do mundo com base em indicadores como oportunidades econômicas e participação política. Ano passado, o Brasil caiu para a posição 90 – no primeiro estudo, o Brasil ocupava a 67ª posição. #NãoMeAbsorva

Tendo em vista todas essas previsões nada animadoras, é importante destacarmos iniciativas implementadas ao redor do mundo que visam justamente melhorar este cenário. É o caso da Islândia, primeiro país do mundo a tornar ilegal e punir com multas quem paga um salário maior para um homem, em relação a uma mulher, quando eles ocupam o mesmo cargo. Pela nova legislação, implementada em janeiro deste ano, todas as empresas privadas e agências governamentais com mais de 25 funcionários são obrigadas a obter uma certificação oficial que comprove suas políticas de igualdade salarial entre homens e mulheres.

Os empregadores que não cumprirem a legislação estarão sujeitos a multa, que pode chegar a 50 mil coroas islandesas (cerca de R$ 1.500) por dia de descumprimento. Empresas com mais de 250 funcionários têm até o final deste ano para se adequar à nova regra, enquanto que companhias com menos de 90 funcionários podem se adequar até 2021. A nova lei foi aprovada por todos os partidos políticos do Parlamento islandês, onde 41% dos deputados e funcionários são mulheres. #RepresentatividadeImporta.

A meta da Islândia é eliminar a desigualdade de salários entre homens e mulheres até 2020. No ranking do Fórum Econômico Mundial, o país é apontado como a nação em que há mais igualdade de gênero, à frente de nações como Noruega, Finlândia e Suécia. Por conta disso, é considerado, atualmente, o melhor país do mundo para ser mulher. Apesar do destaque, as mulheres islandesas ainda ganham entre 14% e 18% menos do que os homens, segundo dados do próprio governo – na União Europeia, a diferença de salários entre homens e mulheres é, em média, de 16%.

E foi graças à união delas que a situação começou a mudar. Em outubro de 2016, milhares de mulheres saíram às ruas para reivindicar a igualdade salarial. Elas pararam de trabalhar às 14h38, horário a partir do qual elas calculam que começam a trabalhar de graça, levando em consideração a discrepância salarial com os homens (um levantamento semelhante, feito no Brasil, mas considerando os 365 dias do ano, mostrou que as mulheres passam a trabalhar de “graça” a partir do dia 19 de outubro).

Do protesto, as trabalhadoras seguiram direto para o Parlamento – estima-se que 90% das mulheres do país aderiram à manifestação, incluindo as donas de casa. Segundo dados oficiais, na Islândia 80% das mulheres trabalham e ocupam 65% das vagas universitárias. No país, pais e mães têm licença remunerada e cada um pode ficar em casa por três meses após o nascimento dos filhos e ganham outros três meses de licença, também remunerada, para dividir da forma que quiserem. Exemplos práticos a serem seguidos por outras nações, incluindo a nossa, em busca de uma sociedade igualitária.

Foto: INTS Kalnins/Reuters

Mulheres unidas, ativar!

MULHERES UNIDAS, ATIVAR!

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MULHERES UNIDAS, ATIVAR!

Eu acredito profundamente no poder transformador da sororidade. Quanto mais nós mulheres nos ajudamos mutuamente, mais próximas ficamos da sociedade igualitária que tanto almejamos. A organização sem fins lucrativos Women in Cinema Collective (WCC) é um exemplo da força da união feminina.

Ela foi criada no ano passado a partir de um caso de estupro sofrido por uma atriz do cinema malaialo, uma das quatro indústrias cinematográficas do sul da Índia, que chocou a opinião pública. Quando um ator popular emergiu como o principal acusado, o choque se transformou em indignação coletiva. Um grupo de mulheres que atuam no cinema decidiu se reunir, por meio de um grupo no WhatsApp, para pensar maneiras de ajudar a colega.

As reuniões do grupo, inicialmente on-line, passaram a ser presenciais. Cada história de violência compartilhada pelas integrantes nos encontros provou que a violência sofrida pela colega atriz, motivo inicial da reunião de todas, não era um caso isolado, mas uma realidade bastante comum. “Isso mostrou que a gente precisava fazer mais do que apenas sensibilizar a mídia e a sociedade. Era necessário redigir cartas, definir o que a organização representaria, fazer panfletos, decidir os programas, projetar oficinas”, declarou a atriz Padmapriya Janakiraman, uma das fundadoras do coletivo. Ela mesma sofreu uma agressão de um diretor em um set de filmagem apenas por não ter a “expressão correta”. #NaoMeAbsorva

A organização se reuniu com o Ministro Chefe de Kerala, Pinarayi Vijayan, estado em que se fala o idioma malaialo, para solicitar uma investigação do caso de estupro e colocar em debate questões como a disparidade salarial e o tratamento às mulheres dentro da indústria do cinema indiano. A ideia é criar diretrizes que garantam a segurança e o bem estar das mulheres nos sets de filmagem e a punição dos agressores.

O coletivo também exigiu ao Ministro que o governo passe a oferecer cursos para capacitar as mulheres nas habilidades técnicas do cinema, reservar vagas para o público feminino em cargos técnicos em estúdios governamentais, oferecer prêmios a filmes que abordem questões sobre igualdade de gênero e subsídios para produções que possuem pelo menos 30% de mulheres nas equipes.

A criação da organização, claro, incitou ataques de homens poderosos do cinema indiano, como o ator e produtor Mammootty, no intuito de desqualificar a proposta da ong. Em resposta, o coletivo publicou em sua página oficial no Facebook um comunicado. “Não estamos lutando contra homens ou indivíduos em particular. Nossa luta é contra as estruturas que sustentam a supremacia masculina, contra uma cultura que não está disposta a tratar as mulheres como iguais”. Precisa dizer mais? Acho que não.  A repercussão da WCC tem sido tão boa que um grupo de apoio semelhante está para ser criado em Chennai, capital do estado de Tamil Nadu, também no sul da Índia. A prova viva de que juntas somos mais fortes e podemos fazer muito mais por nós mesmas. Mulheres unidas, ativar!

 

Não é mimimi

NÃO É MIMIMI!

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NÃO É MIMIMI!

No dia 15 de janeiro, uma postagem no Facebook da paraibana Yasmin Formiga, de 20 anos, virou assunto na internet.  Na imagem, a estudante de Artes Visuais está com o rosto pintado, simulando uma agressão, e segura um cartaz com um trecho do funk Surubinha de Leve, do Mc Diguinho: “taca a bebida, depois taca a pica e abandona na rua”.

Em sua postagem, Yasmin chamou a atenção para o quanto a letra da música faz apologia ao estupro. “Sua música aumenta a misoginia. Sua música aumenta os dados de feminicídio. Sua música machuca um ser humano. Sua música gera um trauma. Sua música gera a próxima desculpa. Sua música tira mais uma. Sua música é baixa ao ponto de me tornar um objeto despejado na rua”, escreveu.

A publicação viralizou (foi compartilhada mais de 130 mil vezes), ganhou destaque nos principais jornais e portais do país e fez com que a canção, que estava em primeiro lugar entre as mais virais no Brasil, fosse excluída das paradas do Spotify. A repercussão também fez com que o principal vídeo com a música no Youtube, que contava com 14 milhões de visualizações, fosse retirado do ar.

Diante da acusação, Mc Diguinho disse em um post já apagado em sua conta no Twitter: “se a minha música faz apologia ao estupro, prazer sou o mais novo estuprador, apenas fiz a música da realidade que eu vivo e muitos brasileiros vivem. Viva a putaria!”.

Ele, infelizmente, está correto. A sua música Surubinha de Leve fala mesmo sobre uma realidade nacional. A do país que registra 135 estupros por dia, de acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Só em 2016, foram registrados 49.497 casos, 4,3% a mais que 2015. Um número que pode ser maior porque nem todas as vítimas procuram os hospitais ou a polícia.

O estado do Mato Grosso do Sul tem a maior taxa de estupros proporcionalmente à sua população. São 54,4 casos a cada 100 mil habitantes. Amapá e Mato Grosso aparecem em seguida, com 49,2 e 48,8 casos por 100 mil pessoas. Além disso, em cinco anos, mais do que dobrou o número de registros de estupros coletivos em todo o Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde de 2016. Esse tipo de crime representa hoje 15% dos casos de estupro atendidos pelos hospitais no país.

Após a onda de críticas, a assessoria de imprensa de Mc Diguinho divulgou comunicado em que ele “reconhece o conflito de informações devido toda repercussão, que mora com a sua mãe, irmãs e uma sobrinha e que jamais iria denegrir a honra e moral das mulheres…”. No comunicado, o Mc afirma também que, em “respeito a tudo isso”, lançaria uma versão light da música.

Mc Diguinho e outros artistas precisam entender algumas coisas. A primeira delas é que não é preciso ter mãe, irmã ou sobrinha para ter empatia e respeitar as mulheres (esse tipo de resposta não cola, amigo). Também precisam aprender a ouvir as mulheres (e não encarar nossas manifestações como frescura, falso moralismo ou mimimi) e entender a diferença entre diversão e incitação à violência (acredite em mim, é possível fazer música sem agredir ninguém).

Em um país que possui a quinta maior taxa de feminicídio no mundo, não podemos (e não iremos) tolerar músicas ou artistas que contribuam ou incentivem esse tipo de crime. Ao contrário do que muitos dizem, o mundo não ficou chato, mas está se transformando em um espaço em que as minorias (felizmente e finalmente) têm voz e vez. #NãoPassarão.

Foto: Reprodução/Facebook

Feminismo pra quem

FEMINISMO PARA QUEM?

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FEMINISMO PARA QUEM?

Esta é a pergunta que devemos fazer a cada discussão levantada sobre o tema. Se você é homem e se considera feminista, volte duas casas. Sem sentir na pele as mazelas do machismo, é impossível entender a extensão do problema e, consequentemente, saber o tamanho da bandeira a ser levantada contra ele. É importante saber o peso e o privilégio que atitudes, falas e até mesmo a presença de homens têm, pelo simples fato de serem homens.

Por isso, nessa discussão surgem diversos termos que precisam ser esclarecidos antes de utilizados, como a diferença entre feminismo e machismo, que, ao contrário do que muitos dizem, não são opostos. O machismo é um comportamento socialmente reproduzido que estabelece padrões de comportamento para cada gênero, com o viés de que existe um gênero dominante (homens) em relação a outro submisso (mulheres). Já o feminismo, ao contrário do que muitos acreditam, consiste na luta pela equidade entre os gêneros e não na inversão deles.

Outro esclarecimento que precisa ser feito é o da diferença entre igualdade e equidade que muitos acham serem sinônimos, mas não são. A igualdade coloca todos os indivíduos na mesma caixa e, portanto com os mesmos direitos e necessidades. Porém, quando se observa a realidade prática percebemos que não é bem assim e que muitas pessoas, especialmente os integrantes de grupos sociais minoritários, têm seus direitos restringidos e suas necessidades ignoradas todos os dias. E o único caminho possível para resolver essas questões é através de políticas afirmativas.

Mas não são só as mulheres que sofrem com esse status quo. Meninos (ainda crianças) e homens que não encaixam perfeitamente na descrição de homem imposta a eles pela sociedade têm de lidar com a pressão de não serem aquilo que todos os outros esperam que eles sejam. Com o machismo, todos perdem.

Neste contexto, cabe ao homem não apenas tomar a decisão de lutar para deixar de ser mais um machista no mundo, mas também de chamar a atenção de outros homens para a questão. Todas as vezes que um homem vê um colega fazendo um comentário ofensivo, tendo uma atitude inapropriada ou sendo abusivo com uma mulher e não faz nada, ele está sendo cúmplice da atitude do agressor. A construção de uma sociedade mais igualitária depende de todos nós.

PRECISAMOS FALAR DE FEMINICÍDIO

PRECISAMOS FALAR DE FEMINICÍDIO

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PRECISAMOS FALAR DE FEMINICÍDIO

Em outubro deste ano, Laís Andrade descobriu que o ex-marido, Valdeir Ribeiro de Jesus havia instalado, sem a autorização dela, uma câmera de vídeo no banheiro da casa em que ela morava com o filho dos dois, de oito anos de idade. As imagens eram transmitidas em tempo real por um computador instalado por ele no telhado do imóvel. Laís decidiu denunciar o ex e, a caminho da delegacia, foi morta por ele dentro do carro da polícia em que os dois haviam sido colocados, juntos.

Em depoimento à polícia, o homem admitiu que agiu por ciúme. Laís tinha 30 anos e foi mais uma vítima de feminicídio em nosso país. O caso aconteceu em Minas Gerais, o Estado em que, em 2016, quase 87% dos homicídios contra mulheres (397 mortes) foram enquadrados em feminicídio, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública.

Recentemente tipificado, o feminicídio configura o crime de atentado à vida de uma mulher simplesmente pelo fato de ser mulher, ou seja, pela situação de vulnerabilidade social em que muitas de nós nos encontramos em diversas situações do cotidiano, dentro e fora de casa.

A lei, sancionada em 2015, entende que esse tipo de crime específico agrega “violência doméstica e familiar” e “menosprezo ou discriminação à condição de mulher” ou qualquer atentado contra uma mulher a partir do ódio ao feminino e o que ele representa e pode representar.

Qualquer violência de gênero (como agressões físicas e psicológicas, estupro, mutilação genital, entre outras) que configura em morte pode ser enquadrada na lei – o feminicídio considera o assassinato a etapa final de uma série de abusos.

A diferenciação em relação ao homicídio é importante, pois além de aumentar a pena ao agressor (passando de seis a 20 anos para 12 a 30), ele conscientiza a população a respeito da violência contra a mulher. Além disso, é importante ressaltar o fato de que grande parte desses crimes acontecem dentro de casa. Ou seja, nós mulheres não estamos seguras em nossos próprios lares, um problema que os homens não têm.

Entre março de 2016 e o mesmo mês desse ano, ocorreram 2925 feminicídios, um aumento de 8,8% em relação ao ano anterior (dados dos Ministérios Públicos estaduais). São quase OITO casos por dia! #NaoMeAbsorva No ano passado, foram registrados 49.497 casos de estupros no país, uma média de 135 por dia, um aumento de 4,3% em relação a 2015.

Com essas taxas e números, somos o quinto país que mais mata mulheres no mundo (Mapa da Violência 2015). Entre os anos de 1980 e 2013, mais de 100 mil brasileiras foram mortas apenas por serem mulheres!

Ainda que os números sejam alarmantes, estima-se que eles não correspondam à realidade. Isso porque a tipificação do crime ainda é feita de forma incorreta e as mortes por feminicídio geralmente são classificados como homicídios simples. A melhor maneira de resolver essa questão é exigir a investigação policial de todos os casos de mortes violentas envolvendo mulheres. #MexeuComUmaMexeuComTodas

Foto: Fábio Braga

Hysteria

PARA VER E OUVIR AS MULHERES

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PARA VER E OUVIR AS MULHERES

Como vocês bem sabem, eu sou completamente fascinada pela origem das palavras. Histeria, por exemplo, vem do grego Hystera ou Hysteros e significa útero. Ao longo da história da humanidade, o termo foi utilizado de maneira pejorativa contra nós mulheres, sempre associado a transtornos nervosos e bruxaria e também como argumento para nos fazer ficar quietas. Quem nunca ouviu um “como você é histérica!” em uma discussão, não é mesmo? #NaoMeAbsorva

Com o objetivo de ressignificar o termo e dar voz criativa às mulheres, a Conspiração Filmes, uma das maiores produtoras independentes do Brasil, criou a Hysteria, divisão de produção de conteúdo (webséries, curtas metragens, reportagens, podcasts e playlists) totalmente criada por mulheres. Segundo Renata Brandão, CEO da Conspiração, em entrevista para a Folha de S.Paulo, dos 400 diretores em atuação no mercado atualmente, menos de 20% são mulheres. A ideia é justamente mudar esse cenário. Nesse sentido, o projeto conta com dez profissionais fixas e mais de 500 parceiras, entre roteiristas, diretoras, youtubers, designers e jornalistas, que proporcionam a criação de produtos sem estereótipo e limitações e com diversas perspectivas e recortes: a visão feminina sobre temas diversos, não necessariamente femininos.

Entre os programas originais da iniciativa, estão a websérie Tudo, com a atriz e escritora Maria Ribeiro, Alerta de Tubarão, com a fundadora do YouPix Bia Granja, além de coproduções, como a segunda temporada da série O Nosso Amor a Gente Inventa, da apresentadora Sarah Oliveira (um mais interessante que o outro). O universo pornô, sob a ótica feminina, também será explorado pela plataforma por meio de três curtas-metragem (um deles, batizado de Amores Líquidos, terá o Carnaval como pano de fundo).

A plataforma também tem desenvolvido projetos em parceria com empresas e instituições, como o Masp e a Google, por exemplo. Para o primeiro, a Hysteria documentará o processo criativo de estilistas e artistas famosos na criação das peças; já para o segundo, fará uma série sobre mulheres empreendedoras #ChegarLa. O projeto ainda contará com o Festival Hysteria, programado para o primeiro semestre de 2018, que contará com 12 shows de mulheres espalhados por São Paulo (numa espécie de Virada Cultural). São as mulheres conquistando todos os espaços #WeCanDoIt

Geena Davis

OBRIGADA, GEENA DAVIS

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OBRIGADA, GEENA DAVIS

Eu sempre fui fã da atriz Geena Davis (sua transgressora Thelma, do clássico Thelma e Louise, me marcou profundamente). Mas é o seu engajamento, há mais de 20 anos, para tornar Hollywood menos sexista que a fez ganhar a minha profunda admiração. Com a percepção de que havia uma enorme disparidade de gênero presente na mídia estadunidense,  Geena resolveu fundar, em 2004, o Instituto que leva o seu nome e que objetiva incentivar a maior participação das mulheres na indústria do entretenimento nos EUA.

Desde então, o Instituto Geena Davis desenvolve estudos que comprovam que nós mulheres temos menos oportunidades, menores salários e que ainda temos que lidar com as várias facetas do machismo e da misoginia cotidianamente. Com base nestes dados, a organização busca desenvolver propostas para engajar, educar e influenciar produtores de conteúdo dentro de Hollywood a eliminar os clichês e problemas da representatividade feminina de seus scripts de filmes e séries.

Segundo Geena, com a baixa valorização das mulheres nas produções (para adultos e especialmente para as crianças), nós não despertamos o potencial de nossas meninas, não as incentivamos a questionar os papéis e estereótipos de gênero e transmitimos a mensagem de que elas não têm espaço e que não são importantes. Ao mesmo tempo, encorajamos os meninos e homens a acharem que realmente são os únicos protagonistas possíveis de todas as histórias.

Em parceria com a USC Viterbi e a Google, o Instituto lançou em 2016 o Quociente de Inclusão Geena Davis ou GD-IQ, uma ferramenta de análise de conteúdo midiático em tempo real usada para gerar dados a respeito do que está passando na tela com precisão. Ele identifica a desigualdade de representatividade entre grupos e identifica estereótipos.

Uma pesquisa realizada em 2015 pela organização em 11 países, entre eles o Brasil, trouxe números bastante preocupantes. Um exemplo: 51% dos brasileiros acreditam que o entretenimento reforça que é aceitável assediar mulheres #nãomeabsorva.

Por outro lado, 63% pensam que ver situações de violência doméstica e contra a mulher ajudam a combater esses crimes e uma em cada quatro brasileiras afirmaram terem sido encorajadas a abandonar relacionamentos abusivos por meio de historias de mulheres fortes na ficção. No Brasil, a pesquisa entrevistou duas mil  pessoas nas principais regiões metropolitanas

Estes dados só mostram a importância da luta do instituto Geena Davis e confirmam aquilo que todas já sabemos, e que eu já disse aqui em outras ocasiões: tivemos avanços, mas a luta continua. Como diz o lema da organização: “se ela puder ver, ela poderá ser”. Por mais mulheres em todos os segmentos do audiovisual!

O SEXISMO EM HOLLYWOOD

O SEXISMO EM HOLLYWOOD

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O SEXISMO EM HOLLYWOOD

“Para toda mulher que já deu à luz, para cada contribuinte e cidadã desta nação. Nós temos lutado pelos direitos iguais de todas as outras pessoas e é a nossa hora de ter igualdade salarial de uma vez por todas, direitos iguais para as mulheres nos Estados Unidos”. A declaração acima foi dada pela atriz Patrícia Arquette ao receber o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme Boyhood, em 2015, e elevou a discussão sobre a disparidade salarial e de oportunidades entre homens e mulheres em Hollywood.

O debate foi iniciado no fim de 2014, quando documentos vazados do estúdio Sony Pictures revelaram a discrepância salarial entre atores e atrizes. A partir disso, atrizes, produtoras, diretoras e roteiristas, a exemplo de Patrícia, passaram a se manifestar publicamente sobre o assunto. No início deste ano, por exemplo, Natalie Portman declarou em entrevista que ganhou três vezes menos que o colega de elenco Ashton Kutcher para protagonizar o filme Sexo sem Compromisso, em 2011.

O sexismo em Hollywood é algo que se manifesta nos mais diferentes níveis e de maneira nada velada. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, entidade responsável pela entrega do Oscar, por exemplo, é composta majoritariamente por homens, 77% para ser mais precisa, e, em 86 anos de história, premiou apenas UMA mulher como Melhor Diretora #naomeabsorvafabiano

Quer mais dados? Levantamento recente feito pela Escola Viterbi de Engenharia, da Universidade do Sul da Califórnia (USC), analisou cerca de mil roteiros de filmes populares produzidos nas últimas décadas, utilizando inteligência artificial e aprendizado por máquina. O resultado: dos 7.000 personagens analisados, quase 4,9 mil eram homens e apenas pouco mais de 2,1 mil eram mulheres. Além disso, os personagens masculinos falavam muito mais que os femininos – 37 mil diálogos envolviam homens e apenas 15 mil mulheres.

Outro estudo, realizado pela Escola Annemberg de Comunicação e Jornalismo, comprovou que, em 900 filmes lançados no período de quase dez anos (entre 2007 e 2016), a porcentagem de personagens femininas com falas nunca superou 32,8%. O site Polygraph.com fez algo similar e analisou, em 2016, mais de dois mil roteiros para identificar a quantidade de diálogos atribuídos a atores e atrizes nas produções. O resultado é chocante: 1195 filmes têm entre 60% e 90% dos diálogos pronunciados por homens – por mulheres, apenas 166.

Segundo relatório realizado pelo Center for the Study of Women in Television and Film, da Universidade Estadual de San Diego (EUA), em 2016, 34% dos 250 longas-metragens de maior bilheteria não contrataram produtoras; 58% não contavam com produtoras executivas; 77% não tinham roteiristas mulheres; 79% não tinham mulheres na equipe de montagem; 96% não deram espaço para nenhuma diretora de fotografia; e 92% dos filmes não tinham nenhuma diretora do sexo feminino #assustador

Em frente às câmeras, o cenário também é pouco animador: estudo feito pelo Centro de Estudo Sobre Mulheres na Televisão e no Cinema, da San Diego State University, revelou que o percentual de protagonistas mulheres nos filmes de maior bilheteria de 2014 foi de 12%. Mais: 58% das mulheres só são escaladas para interpretar papéis sociais, como mães, esposas, amantes e não profissionais, ao passo que 61% dos homens são identificados por suas profissões.

A idade também é um fator que impacta negativamente as mulheres no cinema. Um estudo realizado em 2014 concluiu que os salários das mulheres em Hollywood crescem apenas até os 34 anos e, a partir daí, começam a cair. No caso dos homens, o salário cresce até os 51 anos e mantém certa estabilidade até alguns anos depois.

Mas as coisas, felizmente, estão começando a mudar, ao menos na TV norte-americana, considerada por muitos críticos como o grande celeiro criativo dos EUA na atualidade. Neste mês, por exemplo, o canal FX reuniu produtoras e diretoras de séries de grande sucesso, como American Horror Story, Scandal e The Americans, para discutir o assunto.

No evento, realizado na Television Critics Association (TCA), as profissionais destacaram a importância da criação de cotas de gênero para aumentar a participação das mulheres nas produções. “As cotas são necessárias para que as mulheres possam obter um primeiro emprego como produtoras e também para mudar as mentalidades”, afirmou Meera Menon, que já dirigiu episódios de Snowfall e Blood Drive. “Não somos iniciantes. Apenas precisamos que nos deem uma oportunidade. Ryan Murphy me confiou um episódio de American Horror Story e mudou a minha vida”, disse a diretora Rachel Goldberg.

Ano passado, o mesmo canal FX criou a Half Initiative, iniciativa que teve o intuito de aumentar a participação de mulheres ou representantes de minorias nas produções da emissora. O projeto tem sido um sucesso e ampliou de 12% para 51% o número de mulheres diretoras no canal.

Outro espaço interessante que tem buscado ampliar a representação das mulheres na mídia é o Geena Davis Institute on Gender in Media, da premiada atriz Geena Davis. Recentemente, eu comecei a fazer um curso maravilhoso, promovido pelo instituto, sobre representação de gênero e raça no entretenimento brasileiro. Enquanto mulher e dramaturga, busco constantemente nos meus trabalhos autorais aumentar a participação de mulheres, dentro e fora de cena, porque sei a importância da representatividade. Como diz a própria Geena Davis, “if she can see, she can be it”, ou “se ela pode ver, ela pode ser”.

E quando falamos em representatividade na indústria do entretenimento dos EUA, é impossível não mencionar Shonda Rhymes, a roteirista e produtora norte-americana, recém-contratada pela Netflix. Mulher e negra (população com baixíssima representatividade no cinema e na TV), ela é criadora de algumas das séries de maior sucesso da TV nos EUA, duas delas, Scandal e How to Get Away With Murder, com protagonistas negras. Uma profissional que, como bem disse Viola Davis (uma de suas protagonistas e primeira atriz negra premiada com o Emmy de Melhor Atriz em série dramática), redefiniu o que é ser mulher e negra na televisão dos EUA e, por consequência, do mundo.

A disparidade de gênero ainda é uma realidade, não apenas em Hollywood, mas no mundo. Porém, quanto mais falarmos sobre a questão e, principalmente, quanto mais apoiarmos mulheres que, como Shonda e Deena Davis, fazem a diferença, mais próximos transformaremos ‘a Man’s World’, ou ‘o mundo dos homens’, em um mundo igualitário, sem distinção de gênero, bom pra todo mundo.